Niterói, Segunda | 20-05-2012
O Hospital
do Coração de Niterói

Hospital Coração Cardilogia

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Volta ao Passado
Escrito por Dr. Luiz Augusto de F. Pinheiro

Há alguns anos observa-se um predomínio absoluto da escuderia Ferrari na Fórmula 1. Seu principal piloto, Michael Schumacher, já é pentacampeão mundial; nosso conterrâneo, Rubens Barrichelo, este ano sagrou-se vice-campeão e a escuderia é várias vezes campeã mundial de construtores. Esta supremacia vem preocupando os organizadores e dirigentes desse grande circo. Sem competidores à altura da Ferrari, as disputas perdem em emoção, tornam-se mornas, enfadonhas, o interesse pelas corridas vai diminuindo e, com isso, os milhões de dólares envolvidos.

Muitas soluções vêm sendo pensadas para se conseguir um equilíbrio entre as equipes, com retorno da emoção nas disputas, essencial para garantir público, patrocinadores, discussões, rivalidades, projeção na mídia e, conseqüentemente, aporte financeiro. Segundo notícias veiculadas nos meios de comunicação, algumas idéias têm sido propostas e discutidas. Aumento do peso dos carros da Ferrari, modificações dos pneus, troca de pilotos e de engenheiros etc. Uma simples análise mostra que todas as medidas, até agora propostas, visam reduzir as potencialidades da Ferrari, produzindo um nivelamento por baixo.

Até poucos anos atrás o mundo vivia um equilíbrio político-social-econômico, determinado pelo antagonismo existente entre potências capitalistas-democráticas, capitaneadas pelos Estados Unidos da América do Norte e Inglaterra, e outras socialistas-comunistas, claramente dominadas pela União Soviética e China.

Esta situação, de forma nítida, marcou o período de tempo entre o término da Segunda Guerra Mundial, na primeira metade da década de 40, até a queda do Muro de Berlim, em 1989. Foi o período da chamada Guerra Fria, que perdurou por mais de 40 anos. Época de muitas tensões, situações graves e extremas, conflitos regionais, porém nunca ameaçadores da paz mundial. Em sua essência, as grandes potências antagônicas conheciam a capacidade bélica de cada lado, temiam-se mutuamente e, por isso, respeitavam-se.

O Muro de Berlim, mais que um acidente topográfico, coercitivo do direito de ir e vir dos povos, principalmente dos alemães, divisor de uma nação, marco do autoritarismo e do desrespeito aos direitos humanos, foi emblemático como equilíbrio de forças entre Oriente e Ocidente.

Com a desintegração das Repúblicas Socialistas Soviéticas e uma abertura ao capitalismo, ocorrida na China, o bloco socialista-comunista enfraqueceu, o fiel da balança internacional, que media o peso desses rivais, pendeu para o lado do Ocidente. Derrubou-se o Muro de Berlim.

O mundo tornou-se menor, o intercâmbio aumentou, desfizeram-se fronteiras geográficas e alfandegárias, unificaram-se moedas , enfim, resumindo, ocorreu a tão comentada globalização. Bem ou mal? Bem para uns (os mais fortes), mal para outros (os mais fracos).

Delineia-se, desde então, uma única nação forte, poderosa, que tudo pode e nada pede, dominadora, juiz e algoz, os Estados Unidos da América do Norte. Eles desejam ser, principalmente por vocação e determinismo de seu atual presidente, os xerifes do mundo, imiscuindo-se em todos os assuntos e problemas, mesmo os de natureza interna dos países. Um desrespeito à autodeterminação de povos e nações. A instância para dirimir dúvidas, distingüir o bem do mal, definir o certo e o errado deve ser a Organização das Nações Unidas (ONU).É ela quem deve determinar as ações a serem tomadas e todas as nações necessitam seguir suas orientações.

Mas, infelizmente, não é isso que vem ocorrendo. Substituiu-se a força do poder pelo poder da força. A supremacia econômica e bélica dos Estados Unidos no contexto universal são, ao mesmo tempo, garantias de paz, por falta de adversários, e instrumentos de opressão e imposição.

O que fazer? Como optar pelo caminho certo na encruzilhada em que se encontra o mundo? Voltemos à Fórmula 1. A solução correta para torná-la mais competitiva seria a que se vem propondo? Seria enfraquecer a equipe Ferrari? Enfraquecer a Ferrari seria, e será, um contra-senso. É desestimular a pesquisa, entravar o progresso. O correto, a visão pragmática do futuro, é estimular, instrumentalizar as demais equipes para que avancem mais e possam se ombrear com a vencedora.

À semelhança, espera-se que algo ocorra a nível mundial. Embora na História Universal vários grandes impérios tenham se desintegrado por si mesmos, não é esse o desejo. Os Estados Unidos da América são um grande país, uma grande nação. Seu povo é determinado, trabalhador e patriota. Que continuem assim. O mundo muito lhes deve em todos os campos que levam ao progresso.

Urge, entretanto, um contraponto. Imperioso é o aparecimento de países fortes, opositores do atual sistema hegemônico. Por paradoxal que parecer possa, é premente, do ponto de vista simbológico, a construção de um novo Muro de Berlim.
Há que se retornar ao passado, para se construir um futuro mais justo, seguro, equânime e estável.