| Seguramente, a palavra mais falada, escrita e divulgada nesse final de 2001, primeiro ano do terceiro milênio, Século XXI, foi PAZ. Ouve-se nas ruas, nas convenções, nas praias, em reuniões associativas, científicas e culturais, nos lares, nos templos, nas televisões, nas rádios, enfim, nos mais variados locais. Lê-se em cartazes, mensagens natalinas, postes, muros, outdoors, faixas, jornais, revistas etc. Sentimo-la presente, pairando no ar, no desejo e na esperança de todos. Curiosamente, após o infausto acontecimento de 11 de setembro nos Estados Unidos da América, e seus desdobramentos, quando um conflito latente, porém evidente, aflorou com toda sua força, ela passou a ser, mais que nunca, um desejo universal. Creio, até, que dos próprios países diretamente envolvidos. Entretanto, fica-me uma dúvida. Pode a PAZ ser fruto de um desejo? A esperança pode ser o caminho para alcançá-la? Poder-se-á obtê-la por decreto? Por injunções políticas? Por crença? Por acordos? Difícil, senão impossível. Em tempos idos e vividos Schopennhauer afirmava: “ - Você pode fazer o que quer, é certo, mas não pode querer o que quer”. Não basta, ou melhor, é impossível obter-se a PAZ por querê-la ou deseja-la; é necessário construí-la. Em tempos ainda mais pretéritos, antigos líderes romanos proclamavam convictos: “- Se queres a paz, prepara-te para a guerra” (Se vis pacem para bellum). Nada mais equivocado. Equívoco no qual incorrem muitos dos atuais governantes. Para se edificar uma PAZ verdadeira e duradoura não se pode concebê-la submissa a uma ameaça, como antônimo de guerra, porém, sim, sinônimo de respeito, comiseração, igualdade, solidariedade, compreensão, fraternidade, justiça. Antes de torná-la pública, coletiva, divulgada, observada, precisa-se cultivá-la, acariciá-la, domesticá-la, no mais recôndito de cada ser humano. Cada pessoa necessita contribuir com seu tijolo para a sólida construção do almejado edifício da PAZ. Segundo os Evangelhos, Cristo dizia: - “A paz esteja convosco”. Só colabora na elaboração da PAZ quem a traz consigo. Enquanto persistirem em todo o mundo as desigualdades gritantes e as indiferenças face a elas, a violência negligenciada, explicada e justificada, as injustiças seletivas praticadas contra os mais desprotegidos e, principalmente, a acomodação, a falta de ação contra tudo isso, difícil será obtê-la. Difícil porém não impossível. Há que se passar de abstratos votos, desejos, esperanças, discursos, para concretos atos, realizações e posicionamentos de PAZ. Cada ser humano necessita, primeiro, alcançar a sua harmonia interior para depois contribuir com o seu quinhão, pragmaticamente, na construção de uma verdadeira PAZ universal. Alguns afirmarão: “- Utopia”. Talvez, quem sabe? Mas pode não ser. Vale a pena investir no sonho. Os melhores sonhos são aqueles aparentemente irrealizáveis. Sonhos possíveis de serem concretizados não são sonhos, são projetos. Que a PAZ interior de cada um seja a matéria prima da construção de uma PAZ global, duradoura e concreta. |
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PAZ: do abstrato ao concreto
Escrito por Dr. Luiz Augusto de F. Pinheiro
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